
Fiz-me palavras e face desenhada em papel borrão, vitral, luminoso quadrado sem gosto e sem perfume. Modelei-me ao sabor do que sabia poderiam querer, mas pra quê? Dancei o tango sem par que me coube por direito suplicado. Foram tantos quereres jogados fora, tantos sonhos suaves e que jamais poderão sonhar com uma realidade feliz… Todos saltaram do 33º andar da minha consciência inconsciente. Não soube sonhar tão bem quanto imaginei. Vai ver que foi demasiado o meu querer nessa vida que brinca de criança mimada e que adora ver suas marionetes com os fios embaralhados e em seguida deixa-las de lado, para que tentem, numa diversão à parte, se desenrolarem dos fios invisíveis…
Quis dormir em companhia certa, sem medos e entregue, mas sempre estive desperta, porque no fundo algo me dizia pra não dormir… Seria um sonho a menos a partir. Mas em raras vezes confiei mais do que em mim e adormeci… Ah, pra que acordar, quando isso se dá? E lá se foi mais um sonho em sua viagem insolitamente certa, me deixando estéril nesse deserto de mim mesma. Agora já não sei mais dormir nem comigo… Os dias amanhecem e dormem, enquanto eu navego em ondas golfadas de brisas que desconheço; em sombras de sonhos que como realidade anseio. A loucura está em saber que sei o que anseio, que posso buscar, fazer acontecer, que pra mim é capaz, sou forte, consciente e não tenho medo de viver… Mas meu corpo me cala, paralisa… Ele sente o que outros não acreditam e se fecha cada vez mais e esconde em sua concha uma espécie de pérola que eu já não sei dizer se sou… Tinha medo de seguir um caminho solitário, e tantas vezes rumei por atalhos sombrios, divertidos, mas todos continham a estampa do que temia. Agora não quero temer, mesmo estando só. Muita coisa há a minha volta: amizades verdadeiras, carinhos sinceros, palavras bonitas, puxões de orelha… Mas há algo que falta. E se depende de mim me aproximar do que quero, manter ao meu lado, já não sei como fazer. O que poderia dizer além de tudo o que já foi dito? Sentir? Teria sentido?
Quer saber, não sei por que ainda insisto em pensar essas coisas e muito menos o porque de tentar fazer com que você saiba, não entenderá nada mesmo…
“Eu bem que avisei, sou estranha!”, ao menos é o que penso de mim, em momentos assim…
Patrícia Gomes
Imagem: Terry F.N Terryan





























Tem dias em que eu sou obrigada a detestar ser teu espelho… =(